Paquetá é um estado de espírito
Artigo de Márcia e José Lavrador Kevorkian,
Sinta-se um privilegiado. Até a hora de embarcar de volta para sua rotina, você terá a chance de conhecer um lugar como nenhum outro. Um lugar tão pertinho do Rio e sua vida veloz, mas que anda em ritmo próprio, esse em que o tempo passa lento e que se imagina as horas pelas cores do entardecer. Paquetá é única, você vai ver. Cheia de encantos visíveis, como suas paisagens e arquitetura, e aqueles que só a alma percebe.
Mesmo com seu jeitão de vila do interior, a Ilha de Paquetá é um bairro do Rio de Janeiro – e um dos mais antigos. É por ruas de saibro que você vai entrar nesse túnel do tempo, encontrar as marcas da história e descobrir aquele que talvez seja um dos maiores patrimônios de Paquetá: a simplicidade do viver. Busque o que há de mais puro guardado em você para se apaixonar por essa ilha e sua comunidade hospitaleira, gente que descansa na varanda, põe cadeira na calçada, pede desejos para a estrela cadente e tem pé de fruta no quintal.
Experimente sentar num banquinho na beira da praia para ver o voo das garças, ouvir o silêncio, esperar a puxada de rede do pescador. Dispa-se da pressa. Cumprimente quem passa, porque, em Paquetá, estranho é não dar bom dia, mesmo a quem não se conheça.
Admire as janelas e as portas sempre abertas para a brisa e os amigos entrarem. Seguindo um dos mais tradicionais hábitos do local, refresque a alma com um dedinho de prosa numa esquina. Escute o canto dos pássaros e cantarole uma canção. Sinta-se em casa. E não se espante se encontrar uma árvore bem no meio da rua. Estão ali bem antes de você nascer, poupadas na abertura dos caminhos.
Em sua bucólica caminhada aproveite para visitar a Casa de Artes Paquetá, um Centro Cultural que desenvolve diversos projetos de revitalização cultural na ilha e onde você encontra a exposição A História de Paquetá. E é convidativa uma pausa no Arte & Gula Café, no quintal da Casa.
Paquetá é um estado de espírito, um jeito de viver que faz o mundo ter razão. Entregue-se a ela e viva essa emoção.
Márcia Kevorkian é jornalista, frequenta Paquetá como veranista desde criança e há cinco anos optou por morar na ilha. Ajudou a criar o Plantar Paquetá, grupo que se dedica a preservar a identidade do bairro, seu modo de viver, através do replantio de árvores marcantes para a comunidade, perdidas com o tempo, no mesmo local onde elas um dia existiram. Pelo conjunto de iniciativas que realiza, como o festival de troca-troca de mudas, o Plantar Paquetá recebeu em 2015 o Prêmio de Ações Locais – Rio450, concedido pela Prefeitura do Rio.
Paquetá é uma das ocupações mais antigas do Brasil. Seu primeiro registro, já com esse nome indígena, foi feito pela expedição de Villegaignon em 1555, em sua missão de criar a França Antártica na Baía de Guanabara. E a colonização da ilha começa com a fundação da cidade do Rio de Janeiro e a expulsão dos franceses por Estácio de Sá.
Paquetá sempre cumpriu papel importante para a nação, com passagens históricas relevantes e como fornecedora de produtos como a cal para as construções da cidade. Já no Brasil-Colônia, seus atrativos a transformaram em local de visitação para nobres famílias. Desde sua chegada em 1808, abrigando-se em Paquetá de uma tempestade, Dom João VI elege a Ilha dos Amores como seu refúgio, hospedando-se regularmente naquele que é hoje o Solar D’El Rei. A tradicional Festa de São Roque – padroeiro de Paquetá – contava com a presença do Rei, que, graças ainda às supostas águas milagrosas do Poço de São Roque, teria curado uma úlcera em sua perna.
Em 1838, começa a navegação regular para a ilha e, em 1843, Joaquim Manuel de Macedo escreve o sucesso A Moreninha, o primeiro romance brasileiro.
Um século que eternizou Paquetá, com sua identidade bucólica e apaixonante, que a todos encanta até os dias de hoje.
José Lavrador Kevorkian é coordenador da Casa de Artes Paquetá, onde desenvolve projetos de preservação e revitalização cultural para a ilha de Paquetá, valorizando sua rica identidade e modo de vida, com a comunidade como protagonista e beneficiária. Coordena os projetos Bem Me Quer Paquetá, Centro de Memória de Paquetá, Orquestra Jovem Paquetá, Série Amartes de Música Instrumental Brasileira, O Choro do Anacleto - Roda de Choro, Ponto de Cultura Paquetá na Rede.